

Os alunos mais velhos são apenas adolescentes. Os mais jovens têm cinco, seis anos de idade. São crianças, que provavelmente nem entendem a disciplina exigida deles naquele monastério. Estão todos sentados, no chão de tábuas escuras, gastas, as pernas cruzadas na posição de lotus, alinhados em filas, separados justamente pela idade. O ?caderno? aberto à frente de cada um deles é uma pilha de folhas soltas de papel reciclado, armazenadas entre dois pedaços de madeira entalhados com as letras do rebuscado alfabeto butanês.
A sala é imensa. Nas paredes, pinturas muito antigas, algumas do século XII, datam da construção do monastério de Kunjey, em Jakar, região de Bumthang. Penso que, em muitas partes do mundo, o prédio seria preservado como patrimônio histórico, o local transformado em museu, e os afrescos que bordam toda a extensão das paredes estariam protegidos de dedinhos curiosos em vitrines refrigeradas. Mas o Butão só conhece sua própria história de ouvir falar dela. Muito pouco se escreveu sobre o passado ? inclusive porque, há menos de 50 anos, praticamente todos no país eram analfabetos. História, aqui, é coisa que se aprende no dia-a-dia, na repetição do gesto. O avô ensina para o pai, que ensina para o filho, e os butaneses do século XXI vestem-se, comportam-se, comem ? vivem, enfim ? como faziam seus pais, avôs, bisavôs, tataravôs? nascem e morrem muitas vezes sem nunca deixar sua pequena vila numa montanha do Himalaia. Por que sair dali se a cronicas é igual em qualquer lugar do Butão?
Para atravessar o país no sentido leste-oeste leva-se pelo menos 10 dias, de carro. São apenas 300 quilômetros, mas por causa do traçado das poucas (e estreitíssimas) estradas, viajar é fazer curvas. Nenhum túnel, nenhum viaduto nos serve de atalho. Para ultrapassar uma montanha deve-se contorná-la. Descer até o vale seguindo o traçado da natureza, apenas para subir de novo a próxima montanha e rodeá-la até encontrar o próximo vale. Não adianta ter pressa. Esse é um conceito que não faz parte da cultura butanesa. Nem tente ser prático! Não há linhas retas neste país, nem na geografia nem na lógica. Viajar, no Butão, dá trabalho. E entender o país, mais ainda.
Vamos voltar ao monastério. Penso na crueza do simbolismo budista enquanto vejo aqueles jovens todos ali, vestidos com o mesmo robe vermelho, cabeças raspadas, todos sentados, olhos fechados, repetindo o mantra ao som dos tambores. A comida doada é trazida para o salão. É hipnótico. Tenho vontade de fotografar ? é proibido. Quero ter pena dele, mas? um dos garotos, sentado bem à minha frente, abre os olhos e me encara com uma expressão de tão profunda molecagem, que me faz mudar de idéia. Como será crescer ali dentro, sentir falta da mãe, da família, ter medo do escuro, ter frio, ter fome, ter desejos ? será que eles têm desejos? O desejo é um dos três venenos da alma, ensina o budismo. Do desejo frustrado nasce toda a infelicidade. A ignorância e a arrogância são igualmente abomináveis, e pode-se passar uma cronicas inteira tentando se livrar de sentimentos tão humanos. Será que são felizes?
Na sala dos tambores, a luz natural entra escassa pela única janela aberta. Há também velas acesas no gigantesco altar, atrás do qual se ergue a impressionante estátua do Guru Rimpoche, o segundo Buda para os butaneses, o homem que trouxe o budismo para o Butão no século VII. E a história do país é a própria história de como o budismo se espalhou. Adaptando crenças do xamanismo e rituais indígenas, tornou-se único. E tudo se explica na, e a partir da religião.
Escalar as montanhas butanesas, sonho de nove em cada 10 alpinistas do mundo, é proibido desde a década de 80. A explicação oficial para a medida é o incômodo que o movimento das equipes nas montanhas causava aos espíritos que vivem no alto dos montes. Para acalmá-los, o rei decretou a proibição. Algumas montanhas, que dividem o Butão do Tibet, são escaladas do lado tibetano, mas a maior parte da cordilheira permanece intocada. Intocada também no que se refere à exploração dos recursos naturais. A lei permite que qualquer cidadão use madeira morta ? galhos que caíram das árvores, troncos secos etc. Mas para cortar uma única árvore é necessária a autorização especial da família real. O resultado é que 70% da mata do Butão permanecem virgens! Penso se essas restrições baixadas pelo rei não seriam uma eficiente maneira de conter na população um compreensível desejo de se abrir aos exploradores e possíveis invasores, os gigantes vizinhos, como a China.
Fato é que o butanês médio devota profundo respeito aos deuses que comandam cada elemento da natureza. Exemplo disso são as milhares de bandeiras espalhadas pelo território. No alto de qualquer lugar que se destaque na paisagem, os butaneses fixam bandeiras. São estreitas, com 30 centímetros de largura, mas com até 5 metros de altura, presas em mastros de bambu. Cada casa butanesa tem uma bandeira branca no topo do telhado, sinal de respeito aos antepassados. Quem sabe não funcionem também como eficientes pára-raios?
Mas não é só. Nas residências mais tradicionais, no interior do país, é costume pendurar, em cada um dos quatro cantos do telhado, um amuleto para espantar os maus espíritos. Trata-se de um pênis ? isso mesmo, um pênis! ? entalhado em madeira, com duas asas que o transformam numa espécie de órgão alado mutante, estranho e poderoso! Pode-se ainda pintar nas paredes dois grandes órgõs genitais masculinos, um de cada lado da porta de entrada da casa, de moda a guardá-la do mal. Só no Butão!
O uso do pênis como símbolo de proteção vem dos ensinamentos de um dos mais populares seguidores do Guru Rimpoche: o Divine Mad Man, uma espécie de Maluco Beleza, que usava o sexo e o álcool para atingir o Nirvana. O budismo que prevalence no Butão é o tântrico. Há monges casados, aqueles considerados capazes de usar o desejo para superá-lo. Tudo muito esquisito. Há um dia de festa no país em que os jovens, solteiros, podem pular a janela do quarto das jovens solteiras, e fazer sexo livremente. Os pais da moça fingem que não vêem nada, e depois, claro, aprovam o casamento entre os enamorados. Os bebês nascem alguns meses depois. Não consigo deixar de pensar em como crescem aquelas crianças que vejo às dezenas, correndo pelas vilas. Convivem, todos, com amuletos fálicos, espíritos dos rios, da chuva, das florestas e das montanhas, com histórias de gurus e seus super poderes. Crescem embolados aos cães, muitos cães, que não pertencem a ninguém e que são de todos, cachorros que são reencarnações de entes queridos de cada família e que devem ser tratados como tal. Tudo muito esquisito.
Comecei a minha viagem por Timphu, a capital, uma cidade feia. Está no meio do caminho entre o recente passado rural e um inescapável futuro globalizado. É pobre, mas vivem ali os primeiro ricos de um país que nem conhecia esse tipo de medição de posse. É triste, na desorganização de seus prediozinhos mal acabados, nos esgotos que correm a céu aberto, na sujeira das ruas, no imenso abismo que separa os jovens apertados em jeans dos velhos enrolados nos tecidos tradicionais. Timphu não diz nada sobre o que foi o país, e tomara que não diga nada sobre o que ele será um dia.
Ser passageiro num avião que pousa no meio do Himalaia é uma experiência! Só indicada aos exploradores de sangue frio! Os pilotos butaneses da Druk Air, a companhia aérea do reinado, são treinados na Inglaterra. Quando a rigorosa escola de aviação inglesa os considera prontos, eles ainda passam um ano pousando e decolando aviões vazios na pista de Paro. Só então são liberados para pilotar um dos quatro vôos comerciais que partem do Butão toda semana.
A imigração não tem computadores, mas é organizada e simpática. Se seu nome está na lista de turistas aprovados pelo rei para aquele mês, você será recebido com um sorriso. O Butão só se abriu para o exterior em 1999, e, de lá pra cá, apenas cerca de 6 mil turistas visitaram o país. Eu descubro que sou a turista brasileira de número 60 a pôr os pés no reino do Himalaia. Uma única esteira rolante traz as bagagens, e trocamos dólares pela moeda local num câmbio de US$ 1 = NU 44. O papel moeda butanês é lindo, mas fraquinho, fraquinho. E, apesar do pouco tempo de convivência com o mundo lá fora, os butaneses já descobriram que bom mesmo é ter o cofrinho recheado de dólares.
Wangdi nos esperava no desembarque e se apresentou num inglês correto e cheio de sotaque. Ele seria nosso guia pelas próximas três semanas, e foi quem nos ajudou a desvendar alguns dos mistérios do Butão. Mas, mesmo para ele, algumas dúcronicass serão eternas. Wangdi sabe que nasceu em 1965, mas não tem idéia de em que dia ou mês. Isto tem pouca importância por aqui. Quando uma criança vem ao mundo, um astrólogo checa se o mapa astral dela combina com o de seus pais. Caso se constate que a relação entre eles pode trazer azar, a criança é "adotada" por outra família, com a qual combine. Mas a adoção é só um faz-de-conta para enganar os espíritos da má sorte. O bebê fica mesmo com os pais biológicos. Nascer nos dias 3, 13 ou 23 do mês no calendário butanês também é sinal de que a criança não terá sorte, e cerimônias de purificação do bebê são realizadas para espantar o mau agouro. No dia do nascimento já se considera que o bebê fez um ano, e os aniversários são contados a cada ?virada? de ano. E o nome da criança é sempre escolhido por um monge da região. Em alguns casos, o nome será para sempre um fardo! Se o bebê nasce num dia em que o pai cometeu um erro banal, pode ser agraciado com o nome ?Estúpido?! Wangdi foi abençoado com um nome que significa apenas uma região do país.
Depois da primeira semana de viagem, a 30 quilômetros por hora, e um pouco mareados de tanto chili, lemos no fiel guia de viagem Lonely Planet que, na próxima cidade, haveria uma Guest House suíça! E que serviria, no jantar, fondue e raclete! Uau! Wangdi confirmou a informação e nos contou um pouco da história do lugar. Um suíço, em viagem de turismo ao Butão na primeira leva de visitantes, no fim dos anos 90, apaixonou-se por uma butanesa, casou-se e fixou residência ali mesmo. Voltou então à Europa, e mandou trazer umas vacas e ovelhas para começar uma criação com pedigree. Meses depois, importando equipamentos da Suíça, o casal montou uma fábrica de queijos que entrou para o roteiro turístico do Butão.
A visita ao local é comovente. Wangdi nos ciceroneou com o orgulho do anfitrião que apresenta aos hóspedes uma mega moderna usina nuclear! Mostrou-nos os 20 metros quadrados da fábrica, incluindo o frigorífico com capacidade para cerca de 60 unidades de queijo, como se o futuro do país dependesse daquilo. Famintos por um pedaço daquele queijo, voltamos naquela mesma noite à Guest House ? um hotelzinho simples e familiar montado pelo suíço e sua butanesa. Choki não se parece na verdade uma butanesa. Menos tímida que as locais, tem os traços de uma tailandesa, talvez vietnamita. Ela mesma nos atendeu. Aprendeu com o marido um inglês de acento forte e uniu a eficiência do serviço europeu à tradição butanesa de fazer o visitante feliz, tornando-se uma agradabilíssima hostess.
O casal incomum que toca aquele hotel é apenas uma das realidades inesquecíveis da viagem ao Butão. Trabalham duro para manter a qualidade ? do serviço e também dos produtos à venda ? num país que não fabrica absolutamente nada. Procurei uma caixinha de fósforos do Butão para minha coleção, e nada! Do fósforo aos carros, dos utensílios de plástico aos produtos de limpeza, tudo vem da Índia. O pequeno Butão, nesse sentido funciona como um protetorado do vizinho. Até a moeda local está atrelada ao rupee indiano. E, para entender a lógica desta relação, basta olhar o mapa. Procure lá no meio da Ásia. O Butão é mesmo aquele botãozinho ali, espremido entre os gigantes China, ao norte, e Índia, ao sul. Com qual dos colegas regionais você manteria boas relações? Com a belicosa, porém democrática Índia? Ou com a super poderosa China, que devorou o pequeno Tibet militar e culturalmente sem um aceno de protesto do mundo ocidental? A vizinhança também explica a decisão de manter o país fechado durante tanto tempo. Questão de sobrevivência. Da cultura, das tradições, da personalidade local e do próprio país, em última instância, que, por força da geografia, vive sob constante ameaça de ser ver engolido e desaparecer como nação.
Por isso o ritmo da introdução das nocronicasdes do mundo moderno é propositalmente lento. É como quis o espertíssimo rei: uma abertura rápida o suficiente para que o país não perca a onda globalizante, mas nem tão apressada que faça com que o povo abandone seus costumes, e deixe de se reconhecer. Nesse sentido vale um comentário sobre o último monarca ditador, o quarto na linha sucessória desde o unificador, Ugyen Wangchuk, um governador provincial que, em 1907, conseguiu acabar com dois séculos de guerra civil e dar ao país o atual traçado fronteiriço. O rei Jigme Singhe Wangchuk, neto de Ugyen, anunciou em 2001 que renunciaria ao trono. Ele abdicaria, como fez em favor do filho, e desde 17 de dezembro de 2006, o Butão tornou-se uma monarquia constitucional parlamentarista. Uma nova constituição foi elaborada, embora o povo ainda não entenda bem por que o antigo monarca, adorado com a um pai, tenha planejado tal guinada democrática.
Numa visita que fizemos ao Dzong de Punaka, tivemos a surpresa de ficar frente a frente com a rainha Ashi Tshering Yangdom. O grande rei Jigme Wangchuk casou-se com quatro irmãs. Geralmente, quando um homem toma em casamento a irmã mais velha de uma família, ganha o direito de levar também as irmãs mais novas ? se, é claro, tiver dinheiro para sustentar todas elas. A rainha Ashi é a segunda filha de uma família de seis meninas. A mais velha já estava casada quando do acerto para o casamento de Ashi e outras três de suas quatro irmãs mais jovens com o monarca. A mais nova de todas foi mandada para estudar na Inglaterra. A primeira a procriar foi justamente Ashi, que gerou o primeiro herdeiro homem do rei Jigme. O garoto, hoje com 28 anos, assumiu o poder em 2008, e por isso a rainha Ashi, naquela época, já era chamada de rainha mãe. E tratada com a esperada reverência.
No dia em que fomos ao Dzong de Punaka, soubemos logo na chegada que a rainha pernoitara ali. No portão principal do forte, um carro oficial e três seguranças aguardavam sua saída. Ainda assim fomos autorizados a entrar para a visita, agendada com bastante antecedência. Lá dentro, fomos instantaneamente atraídos pelo canto dos monges, que entoavam um mantra que reverberava entre os muros da fortaleza. Reunidos na sala principal, iluminada por velas, eles participavam de um ritual em homenagem à lua cheia, que nasceria naquela noite. O acesso ao local não nos foi permitido, mas, na enorme praça em frente, pudemos ficar esperando o fim da "reza" e a saída de sua majestade. A rainha apareceu descalça, vestida numa kira, como qualquer butanesa, mas com um manto dourado cobrindo-lhe os ombros, que se derramava até a altura dos tornozelos. O cabelo da rainha era longo, sedoso, e profundamente negro. A irmã mais nova, que a acompanhava, calçou-lhe as sandálias, e a nobre despediu-se do monge-chefe ao pé da imensa porta de madeira entalhada.
A rainha desceu as escadas, seguida de perto pela irmã e por dois seguranças, e foi então que ela nos viu, à esquerda de seu caminho, observando a cena. A rainha mudou seu rumo e veio direto em nossa direção. Parou diante de nós e perguntou de onde éramos. "Brazil", respondemos em uníssono, para espanto da mulher que parecia assim, de perto, muito mais jovem do que se esperaria de uma rainha mãe. Ela então perguntou, muito polidamente e num inglês impecável, se estávamos gostando da viagem ao país, e agradeceu nossa visita. Depois, disse-nos que aquela era uma noite especialmente auspiciosa, por causa da lua cheia, e que deveríamos fazer um pedido. ?Make a wish, make a wish?, ordenou a rainha olhando nos olhos de cada um de nós. E, se uma rainha ordena, cumpra-se! Saí do Dzong flutuando em desejos, pedidos e sonhos, que certamente se realizariam. Afinal, aquela era noite de lua cheia, eu estava no Butão e a própria rainha havia me concedido a dádiva.
O Butão, que nada produz, produz sim muita fé. Por caminhos estranhos, sem atalhos, a fé circula sem obstáculos pela cordilheira. Para nós, a dificuldade do caminho foi medida com precisão. Meca, o gadget guy da viagem, além de registrar o mais belo do reino em sua Canon, mapeou também o traçado da nossa jornada com um GPS instalado no capô do carro. E refez o mapa do Butão, e as certezas do nosso guia, Wangdi! Enquanto marcávamos o traçado do reinado, construíamos nosso caminho até ele. Uma longa estrada de sacrifícios e descobertas, marcada num compasso de tolerância e tranqüilidade.
Acordei da anestesia butanesa na última noite no país, no melhor hotel em que nos hospedamos, integrante de uma nova rede européia que, agora já oferece opções confortáveis, embora caras, em várias cidades do Butão. Tinha até telefone e televisão no quarto! Sintonizei na CNN, e soube que presídios de São Paulo estavam em rebelião. Liguei para o Brasil e soube da ação do PCC, que paralisou a cidade e fez dezenas de mortos no confronto. Welcome to the real world, babe! Welcome back home!


