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  • “O dominó é o mundo”


    Como diz o ditado mineiro, o tempo é o melhor mestre, pena que acabe matando todos os seus discípulos. O tempo mostrou que o ex-todo poderoso do Federal Reserve, o Banco Central dos Estados Unidos, Alan Greenspan, não era um oráculo, que a política de não intervenção nos mercados, alardeada como bandeira intocável pelos republicanos, já não funciona nos nossos dias, e que ganância e corrupção não são exclusividade brasileira.

    Todos erraram - investidores, operadores e fiscalizadores - quando não quiseram enxergar as conseqüências nefastas, para os Estados Unidos e para o mundo, daquilo que acontecia abertamente nos bancos de financiamento: a lambança geral das hipotecas sem garantias sólidas.

    Durante anos ouvimos o capitalismo apregoar que as escolhas do mercado deveriam ser consideradas soberanas e invariavelmente corretas. Uma bobagem do repertório neoliberal. A ambição que nos faz humanos é a mesma que justifica regras e leis firmes para controlá-la. Só por nosso desejo e vontade podemos fazer valer princípios básicos que nos separam da barbárie.

    Barbárie, sim! Mesmo correndo o risco de parecer exagerada acho que a selvageria bem define o comportamento de manada dos bancos de financiamento americanos que, sem limites claros, chafurdaram na lama dos papéis podres.

    Tudo debaixo dos elegantes narizes da autoridade monetária e do governo republicano. Agora, o cidadão que não consegue pagar sua hipoteca, pagará  compulsoriamente o PROER anunciado em capítulos pelo Fed para salvar do buraco bancos e seguradoras. E não há mesmo alternativa: se o governo dos EUA não socorrer agora as instituições em risco, ainda que estimulando, indiretamente, comportamentos irresponsáveis, terá no colo uma crise sistêmica mundial.
     
    Daqui pra frente, é o esperado. Muitos bancos em dificuldades, bolsas desabando, o efeito dominó de praxe. O que realmente me impressiona é a forma como o mercado norte-americano acelerou para o precipício como um trem desgovernado. Os passageiros sabiam que corriam perigo, o maquinista já avistava o fim dos trilhos, mas todos fingiram que a viagem prosseguia normalmente. Ninguém puxou o sinal de alarme para não perturbar o equilíbrio de um mecanismo irreal que dava ao americano médio crédito irrestrito, aos agentes do mercado gordos bônus semestrais, e à esfera do poder político a ilusão de terreno firme para as próximas eleições. Alguma coisa está muito errada numa sociedade que finge que tem aquilo que não tem, que finge que é aquilo que não é.

    Essa crise brotou do coração do sistema americano, que, como se vê, está longe de ser perfeito, mas é o que tínhamos de melhor no mundo capitalista moderno. Pessoalmente, estou torcendo para que as estruturas desse mercado, ainda que abaladas, resistam, e para o bem de todos e felicidade geral das nações, encontrem o novo paradigma operacional que mantenha as liberdades democráticas no comando.





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