

Livre da opressão, Cabul exibia determinação total de reviver. Nem mesmo as exigências do pós-guerra - a cidade arrasada, sem comida, sem energia elétrica e sem calefação no auge do inverno – inibiam a visível disposição dos cidadãos em sair às ruas e retomar suas vidas. Nem mesmo os 22 anos de tirania e guerra - primeiro com os russos, depois o conflito civil e em seguida a ditadura talibã – tiraram o apreço dos afegãos pela liberdade.
O que vi e registrei numa série para os Jornais da Globo e Nacional, em novembro e dezembro de 2001, ainda está muito vivo em mim. E me pergunto como o povo afegão está reagindo aos novos conflitos. A onda de retrocesso vem desde o começo do ano. Em maio, insurgentes talibãs proibiram novamente a TV aos moradores de Logar, uma província perto de Cabul. Para meninas do sul e do leste, proibiram novamente a escola. E pediram o fim das operadoras de telefonia móvel.
Em setembro, na fronteira com o Paquistão, morreram 24 talibãs e 22 ficam feridos. Neste outubro, no mesmo dia, uma sul-africana que trabalhava com ajuda humanitária é morta em Cabul, e um confronto de dois dias, liderado pelas forças da Otan, deixa 20 mortos. Antes, três outras mulheres, que também trabalhavam em projetos humanitários, foram mortas. Os seqüestros têm sido freqüentes, postos policiais já estão em toda a parte, e a insegurança volta a dominar a cidade.
Há cerca de três semanas veio me visitar em meu escritório o escritor Ivan Sant’Ana (Rapina, Plano De Ataque, Caixa Preta) dizendo-me que embarcaria em poucos dias para o Afeganistão. Queria alguns contatos no pais. Ivan esta buscando material para um novo livro, e faz isso da maneira mais perigosa: in loco. Penso nele, agora, e em que cidades terá chegado, o que terá visto e se corre perigo. Doido, sentencio eu, sem o mínimo de autoridade.
Lembro-me que, em 2001, antenas parabólicas feitas de latinhas recicladas coloriam as ruas. Máquinas fotográficas de todos os modelos e tamanhos apareciam de cada porão. Só aí me dei conta da quantidade de pessoas que as esconderam, mesmo correndo o risco da punição talibã, governo que proibia o registro da vida em imagens. Agora as câmeras estavam ali, fotografando as reuniões e inúmeras festas, antes também proibidas. E havia a música, os livros, as gentes, circulando livremente.
Lembrança forte, também, é a da fome. O fim do regime, naquele fim de 2001, coincidiu com o ramadã. Mês de renovação espiritual para os muçulmanos. É quando, acreditam eles, o alcorão, livro sagrado, foi enviado do céu para a salvação dos homens. Durante todo o mês os fiéis jejuam enquanto há luz do sol. É fácil imaginar que, logo que escurecia, a pouquíssima comida na cidade desaparecia em minutos. A única proteína disponível era o frango, servido inteiro e grelhado. Mas a pobre ave era em geral tão magra e pequena que, pra mim pelo menos, era impossível comê-la sem me lamentar pela sua sorte. Chorava na hora do jantar. Virei vegetariana por um tempo. E, como vegetais também não havia, emagreci uns bons 5 quilos naquela cobertura. Apesar dos biscoitos recheados gentilmente fornecidos pelos colegas da APTN, agência que nos vendia os horários de satélite para entradas ao vivo para o Brasil. Gente boa e com boa infra-estrutura. Tinham vodka na bagagem! E biscoitos...
Lembro-me da saudade de um bom banho, que também não era fácil. Quando havia água, era gelada. E naquele frio de temperaturas negativas, era quase preferível a sujeira. No hotel Intercontinental, o único da cidade, cheguei a oferecer a um funcionário US$ 20 por um tonel de água morna, aquecida na boca do fogão da cozinha. E me esbaldei no líquido imundo do tonel, feliz que nem criança.
Foram 12 dias de trabalho muito sofrido. Naquele momento, era impossível registrar a derrocada talibã sem dividir com o povo afegão as privações do pós-guerra. Deixei o país abatida, exausta e muito magra. Mas não foi este o registro que trouxe para o Brasil, e nem o que guardo na memória. Trouxe, isso sim, as imagens do renascimento. As histórias reveladas. A altivez de um povo que, mesmo em condições miseráveis, comemorava o retorno da posse de sua terra e seu destino. E, pessoalmente, ainda trago comigo o imenso privilégio de ter registrado aquela parte importante da história de um país, embora hoje ele se misture com a amargura de perceber que outra parte dessa mesma história agora se repete. Onde estará Ivan Sant’Ana nesse Afeganistão de tormentos e bombas? Boa sorte, amigo.


