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  • Vida

    Sou filha de mineiros que se conheceram em Brasília. Fausto, meu pai, é de Sete Lagoas, mas morou a vida toda em Belo Horizonte. Chegou à nova capital em 1959 para dirigir o departamento jurídico da Rádio Nacional. Minha mãe, aos 17 anos, era radialista em Araguari. Ouvia as transmissões da Rádio Nacional e, em 1960, resolveu que lá trabalharia. Embarcou para Brasília, conseguiu o emprego, conheceu meu pai. Casaram-se, ela parou de trabalhar. Nasci cinco anos mais tarde, no dia 25 de novembro de 1965. A diferença de idade entre eu e meus irmãos é grande: Fausto chegou em 1970, e o caçula, Luiz, em 1975.

    Cresci na 304 Sul, uma das poucas quadras construídas na cidade. O céu, o vasto céu de Brasília e a vermelhidão da terra, são para mim a síntese da capital. Uma cidade estranha, com aquele horizonte opressivamente presente. Para meus olhos de menina, Brasília era, e talvez continue sendo o encontro entre o azul anil e o vermelho poeira. O som da cidade antes da época da chuva era o das cigarras. Aprendi a caçá-las com minha mãe. Pequeninas, passavam dois, três dias dentro de vidros e garrafas sob minha séria observação. Mas as ciências biológicas, confesso, nunca foram meu forte.

    Minha cabeça já buscava o que estava fora do meu alcance. E a curiosidade sobre outros povos, outras culturas, nasceu também naquela época, despertada pelos ciganos, que acampavam com muita freqüência nos terrenos vazios do que seria Brasília. Sempre foi atribuído a eles o roubo de crianças, e as mães zelosas proibiam os filhos de brincar fora de casa. Mas eu não sentia medo ? e hoje sei que só não ia ao encontro deles por pura timidez.

    Fui mesmo acanhada e pequena, primeira da fila no colégio Maria Auxiliadora, só me soltava no balé. Dancei dos seis aos 19 anos. Primeiro porque pisava torto. Depois, como forma de expressão. Cheguei a dar aulas e fazer teste para o grupo Corpo, de Belo Horizonte. Não segui carreira, mas ganhei personalidade com a dança. E, mesmo não sabendo que seria jornalista, escolhi, no vestibular, a profissão que melhor me parecia entrelaçar ciências humanas, idiomas, história. O ideal para quem buscava respostas, independência, e queria conhecer o mundo. E não havia modelo feminino a copiar. Nós, mulheres brasileiras dos anos 80, nos inspiramos no comportamento masculino no mercado de trabalho e, como se sabe, homem não chora, não é mesmo? Foi quando aprendi que teria que ser forte.

    Já no segundo ano do curso de Comunicação da Universidade de Brasília, comecei um estágio na Rádio Nacional. Mas queria o jornalismo impresso. Escrevia sobre economia para a revista Senhor, mais tarde Isto É-Senhor, e depois Isto É. O diretor, José Carlos Bardawill, sempre estimulou minha entrada na TV. Dizia que eu tinha o ?perfil?. Por insistência dele, levei uma fita a uma rede de televisão que se instalava em Brasília, mas a diretora do canal, na época, me aconselhou a desistir para sempre do vídeo. Três meses depois, em abril de 1987, fui chamada pela TV Globo para fazer parte do time de repórteres locais. Foi quando aprendi que as unanimidades não existem.

    Fiz carreira por lá. Fui da equipe do Bom dia Brasil, dos jornais Hoje, Nacional, e atuei como comentarista de economia no auge dos planos que buscavam a estabilidade da moeda. Teria me especializado, não fosse o convite para atuar como correspondente internacional, e realizar o sonho de menina: ver o mundo.

    Não pensava em voltar ao Brasil, muito menos para ancorar um jornal, quando veio o convite de Evandro Carlos de Andrade para trocar Nova Iorque pela bancada do Jornal da Globo, cargo que ocupei com orgulho de 2000 a 2005. Mas, quando assumi a concepção do SBT Brasil, a convite do Sílvio Santos, queria, sim, ter outra vida. Casada pela segunda vez há dois anos, não suportava mais trabalhar das duas da tarde às duas da madrugada, todos os dias. Nesse momento entendi que poderia ser o que quisesse. Bastaria coragem para decidir privilegiar o amor, os amigos, a família. Hoje, com o SBT Realidade, recuperei o que há de mais nobre na profissão: a reportagem. E com a Touareg Conteúdo, empresa que abri para concretizar o programa, tenho um novo desafio: o mercado de mída. Tenho tudo o que desejo e a certeza de que acertei nas decisões de carreira.

    Minha maior satisfação profissional é ouvir de alguém que escolheu o Jornalismo inspirado no meu trabalho. Ou saber que alguém decidiu conhecer um país da África, ou uma comunidade da Ásia, pela curiosidade despertada por uma reportagem que fiz. É o retorno de um compromisso. Levar a informação correta para que a sociedade entenda o país e o mundo, para que as empresas entendam os governos e as sociedades, e possamos todos fazer escolhas cada vez melhores.

















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